Em cenários de instabilidade econômica, as estimativas contábeis ganham ainda mais relevância — e também mais risco. Entre as mais sensíveis estão:
🔹 Valor justo
🔹 Teste de recuperabilidade (impairment)
🔹 Vida útil de ativos
Essas estimativas envolvem alto grau de julgamento profissional, suposições e volatilidade de mercado.
E é justamente aí que a auditoria independente exerce um papel fundamental: testar a razoabilidade dessas premissas, reduzir riscos de distorções relevantes e reforçar a confiabilidade das demonstrações financeiras.
📌 Valor justo em mercados voláteis
Com a adoção das normas internacionais (IFRS/CPC), o valor justo passou a ser amplamente utilizado na mensuração de ativos e passivos. Em ambientes de baixa liquidez ou alta volatilidade — como crises econômicas ou mudanças regulatórias abruptas — a obtenção de inputs confiáveis se torna mais complexa.
A auditoria externa avalia criticamente:
✔️ A hierarquia do valor justo (níveis 1, 2 e 3)
✔️ A validade das premissas dos modelos de precificação
✔️ A consistência com dados de mercado e benchmarks setoriais
📌 Impairment: reconhecer perdas no momento adequado
Regulado pelo CPC 01, o teste de recuperabilidade exige projeções futuras de fluxo de caixa e taxas de desconto que reflitam os riscos dos ativos. Em períodos de pressão por resultados ou elevação das taxas de juros, aumenta o risco de postergação do reconhecimento de perdas.
Por isso, o impairment figura entre os Principais Assuntos de Auditoria (PAA) mais recorrentes, especialmente em setores regulados e intensivos em capital, como energia e saneamento, onde ativos de longa duração dependem fortemente de projeções econômicas e regulatórias.
📌 Vida útil dos ativos e seus impactos no resultado
Diferentemente das estimativas baseadas em fluxos de caixa futuros, como o impairment, a vida útil dos ativos envolve premissas técnicas e operacionais que devem ser reavaliadas periodicamente.
A estimativa da vida útil contábil impacta diretamente o valor da depreciação e amortização e, consequentemente, o lucro líquido. Mudanças tecnológicas, condições operacionais, upgrades, paralisações inesperadas ou aceleração da obsolescência — como observado durante a pandemia — exigem revisões constantes dessas estimativas.
Nos setores de energia e saneamento, onde ativos frequentemente possuem vida superior a 20 ou 30 anos, pequenas alterações na vida útil estimada podem gerar impacto material nos resultados e até influenciar avaliações de impairment. Por isso, o CPC 27 e o CPC 04 exigem que essas estimativas sejam revisadas, no mínimo, anualmente.
🔎 Como a auditoria atua sobre a vida útil
Embora nem sempre apareça isoladamente como PAA, a vida útil está intrinsecamente ligada a outros temas relevantes de auditoria. Os auditores costumam:
✔️ Avaliar se a empresa possui processo formal de revisão das vidas úteis
✔️ Analisar laudos técnicos e estudos de engenharia
✔️ Comparar taxas de depreciação com práticas do setor
✔️ Testar adições, baixas e ativos totalmente depreciados ainda em operação
Falhas na revisão periódica podem caracterizar desvio das normas contábeis e, se materialmente relevantes, resultar em modificação da opinião do auditor.
🔍 O papel crítico da auditoria externa
A auditoria não se limita à revisão de cálculos. Seu valor está no ceticismo profissional, na identificação de vieses e na exigência de evidências robustas, conforme reforçado pela NBC TA 540 (R2), especialmente em estimativas com alto grau de julgamento.
👉 Boa prática para as empresas: mantenha comunicação proativa com a auditoria externa, antecipe temas sensíveis e documente tecnicamente todas as decisões contábeis baseadas em julgamento.
📈 Conclusão
A confiabilidade das demonstrações financeiras depende, em grande medida, da robustez das estimativas contábeis. Valor justo, impairment e vida útil dos ativos são áreas críticas, especialmente em setores regulados, por seu elevado grau de julgamento e impacto material.
A auditoria externa atua como um pilar de mitigação de riscos, promovendo transparência, consistência e confiança. Diante das incertezas econômicas e do avanço tecnológico, espera-se uma auditoria cada vez mais analítica, incorporando ferramentas avançadas e temas emergentes como ESG, ampliando a relevância das informações para todos os stakeholders.
